Depois que iniciei meu estágio no Tribunal de Justiça de Minas Gerais, mais precisamente no Programa de Atenção Integral ao Paciente Judiciário - PAI-PJ, desenvolvi um enorme interesse sobre saúde mental, políticas antimanicomiais e etc.
Como grande parte da sociedade, antes de ter um contato mais próximo com portadores de sofrimento mental, também achava que o louco deveria ser afastado da sociedade e receber seu tratamento atrás dos muros altos de instituições de internação. Hoje, vejo o quão equivocado era meu pensamento.
Quando soube do lançamento do livro Holocausto Brasileiro, de Daniel Arbex, sabia que este livro iria subir para o número 1 da minha lista de leituras.
O livro é um espécie de "documentário" que resgata a trágica e desumana história dos internos do maior hospício do Brasil, conhecido como Colônia e situado na cidade de Barbabacena/MG.
Cerca de 60.000 pessoas morreram atrás dos muros da instituição. Naquela época, qualquer motivo era válido para se internar alguém e a vasta maioria era encaminhado à força para o hospital. Destas pessoas, cerca de 70% sequer possuíam diagnóstico de doença mental. Pelo menos 33 crianças estiveram internadas no Hospital Colônia.
Ao longo de suas 272 páginas, o livros nos leva numa viagem triste e sem qualquer censura. Em alguns momentos interrompi a leitura para recuperar o fôlego. É realmente difícil aceitar que tanta coisa horrível foi praticada com a conivência do próprio Estado, médicos e da sociedade.
São inúmeros depoimentos de pacientes, funcionários e médicos que descrevem sessões de eletrochoque, precariedade de leitos, abandono e muito sofrimento sem porquê.
Pra quem se interessar sobre o assunto, existe também o documentário Em nome da Razão que foi gravado justamente no Hospital Colônia em 1979. São 27 minutos intensos e de uma realidade doída.
Ao longo da minha leitura, foi até engraçado me deparar com história de pacientes que já havia "conhecido" através do documentário acima.
Recomendo para aqueles que gostam do assunto, mas principalmente para aqueles que pouco conhecem a triste história dos manicômios brasileiros. É incrível como em meio àqueles que são tão marginalizados pela sociedade, é possível encontrar muito mais humanidade que aqui, do outro lado do muro.